Política

Os mesmos nomes, mas em uma eleição diferente

Disputa pelo governo do estado em 2022 até o momento traz mais dúvidas do que certezas

Em 2002, muito se especulava na sociedade e na mídia sul-mato-grossense sobre a possibilidade de que o então prefeito de Campo Grande, André Puccinelli, renunciasse ao cargo para concorrer ao posto de governador do estado. As especulações não eram infundadas; Puccinelli possuía aprovação recorde na administração da capital e havia sido reeleito em 2000 com quase 70% dos votos válidos. Nas sondagens feitas até então, ele também liderava a disputa pelo governo com pouco mais de 40% das intenções. Em segundo lugar, aparecia o então governador Zeca do PT, com quase 30%.

Diversas variáveis, no entanto, fizeram com que Puccinelli desistisse da nova candidatura: a dificuldade em vencer um candidato à reeleição – ainda mais quando este também tinha aprovação considerada satisfatória –, a possibilidade de concluir seu mandato para ter um caminho mais fácil quatro anos depois – como de fato ocorreu – e a incerteza sobre o sentimento da população de Campo Grande ao ver seu prefeito deixar o posto para tentar ‘algo maior’.

Vinte anos depois, a história volta a se repetir, com alguns personagens novos e algumas circunstâncias bem diferentes. O atual prefeito da capital de MS, Marquinhos Trad, é um dos favoritos para a corrida ao Parque dos Poderes. Depois de uma reeleição inquestionável em 2020 com mais de 220 mil votos e bons índices de aceitação, mesmo com as adversidades decorrentes da pandemia, ele aparece como nome viável ao comando do estado. O prefeito, é bom lembrar, foi campeão de votos em todas as eleições que disputou até hoje, inclusive a cargos legislativos.

O principal empecilho para que Trad tenha uma vida tranquila na eleição deste ano é o próprio André Puccinelli. Com personalidade forte, problemas com a justiça nos últimos anos, grande popularidade e rejeição, a figura do ex-governador em termos locais se assemelha à do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que lidera as sondagens em âmbito nacional.

Em teoria, por não ocupar cargo eletivo no momento, Puccinelli entraria mais leve na disputa. Alguns podem dizer que ele só teria a ganhar se pondo novamente como opção. Mas estaria o experiente político preparado para um revés eleitoral maior do que aquele precificado? Esta é uma pergunta que, tanto ele quanto Trad, precisam se fazer. A história mostra que grandes derrotas podem significar complicações no futuro político.

Eleições como a de 2022, em que temos o fim de um período de oito anos sob o mesmo governo, são caracterizadas por maior fragmentação entre as candidaturas, reviravoltas e abertura de espaço para os chamados azarões. Foi assim em 1998, quando Zeca do PT tirou Pedro Pedrossian do segundo turno e derrotou o candidato da situação, Ricardo Bacha, indicado pelo então governador Wilson Barbosa Martins. Aconteceu o mesmo em 2014, quando o atual governador Reinaldo Azambuja foi eleito no segundo turno contra o até então inabalável e inquestionável Delcídio do Amaral, deixando o ex-prefeito de Campo Grande e atual senador, Nelsinho Trad, de fora da reta final.

A questão é que o possível azarão de 2022 pode ser exatamente o candidato da situação. Entre os cotados, está o secretário de Infraestrutura, Eduardo Riedel. As pesquisas divulgadas até o momento não permitem analisar o quanto seu nome é competitivo. A baixa rejeição é uma vantagem. O apoio de um atual governante também é sempre um ponto de desequilíbrio.

Mas, no caminho da sua candidatura, Riedel pode sofrer com dissidências internas, que buscariam apoiar a deputada federal Rose Modesto. Para isso, a ex-vice-governadora teria que sair do PSDB e ingressar no mega partido União Brasil, criado em 2021 com a fusão entre o DEM e o PSL. A desvantagem de Riedel está em ter sua candidatura atrelada à de João Dória em plano federal. O governador de São Paulo não passa de 3% nos levantamentos feitos até agora. Rose, por outro lado, teria possibilidade de colar em Jair Bolsonaro ou em Sergio Moro, dois candidatos demonstram mais força neste começo de ano.

Há ainda um nome que não pode ser descartado. O ex-governador Zeca do PT aparece como último entre os mais bem colocados nas pesquisas. Mesmo que, a princípio, ele não esteja pensando em concorrer ao executivo estadual, sua ideia pode mudar conforme a demanda do partido, principalmente se Lula precisar de um palanque mais forte e fiel no estado. Neste sentido, Zeca seria bastante beneficiado com a força do candidato à presidência da República, que hoje é cotado para vencer a disputa ainda no primeiro turno, mesmo que seja bem difícil que isso aconteça. A oportunidade de Zeca surgiria num pleito pautado mais pela emoção do que pelo jogo político racional. Contudo, vale lembrar que o eleitorado de MS tem a característica de ser mais conservador e mais resistente ao lulismo. Um exemplo desta situação é que a rejeição de Zeca é maior do que a de todos os outros candidatos.

Foi essa desconfiança com a esquerda, aliás, que não permitiu a vitória de Odilon de Oliveira em 2018. O ex-juiz federal tinha tudo para aproveitar a onda da Lava-Jato e dos candidatos com história no judiciário naquele ano, mas concorrer pelo PDT, de Ciro Gomes, impediu que ele pegasse carona na ascensão do bolsonarismo. Azambuja o fez de forma mais eficiente.

É certo que a definição do pleito de 2022 será definido pelo humor momentâneo do eleitorado, que deve mudar bastante até setembro e outubro. O que é possível fazer até o momento são perguntas: o campo-grandense perdoaria Marquinhos Trad por sair da prefeitura? Os processos contra Puccinelli serão explorados e pesarão contra ele? Os índices de aprovação de Azambuja seriam suficientes para que o governador emplaque seu sucessor? Haveria espaço para uma mudança de humor no eleitorado conforma a eleição nacional e o consequente retorno do PT ao poder em MS? Uma disputa tão acirrada abriria espaço para um nome novo? Os mais experientes políticos do estado coçam a cabeça tentando encontrar uma resposta. E a verdade é que nenhum deles está perto de consegui-la.