Em palestra magna na Fiems, referência internacional em administração diz que RH precisa deixar papel operacional e atuar como eixo estratégico da transformação organizacional
Em um cenário marcado por mudanças aceleradas e pressões crescentes sobre empresas e trabalhadores, a gestão de pessoas precisa assumir um papel central na estratégia das organizações. O alerta foi feito pelo professor Idalberto Chiavenato, um dos principais nomes da administração no Brasil, durante palestra magna sobre “o novo papel da gestão do talento humano”.
Ao abrir sua fala, nesta terça-feira (12/05) durante o 3º Fórum Fiems Capital Humano, Chiavenato destacou a relevância de Mato Grosso do Sul no contexto nacional. “Tenho a impressão de estar pisando em um chão fértil. Não apenas no sentido literal, mas no encontro entre estratégia, tecnologia e gente”, afirmou, ao ressaltar o papel do Estado como fronteira econômica em expansão.
O especialista chamou atenção para o que definiu como “descompasso estrutural” entre a velocidade das transformações tecnológicas e a capacidade humana de acompanhá-las. “A tecnologia acelera, as organizações aceleram ainda mais rápido, mas o ser humano continua sendo humano — sensível, complexo e extraordinário”, disse.
Segundo ele, esse cenário exige uma mudança profunda no papel do RH. “A gestão do talento humano não pode ser mais apenas operacional. Ela precisa ser estratégica, científica e profundamente humana”, afirmou.
Nova liderança precisa desenvolver e proteger pessoas
Chiavenato defendeu um novo perfil de liderança e uma atuação mais ampla da gestão de pessoas. “Não basta administrar pessoas. É preciso entender, desenvolver, inspirar e também proteger pessoas”, afirmou.
Para ele, a sustentabilidade das organizações depende diretamente dessa mudança de abordagem. “Se não cuidarmos desse descompasso, criamos empresas rápidas e pessoas exaustas”, alertou.
Ao encerrar, Chiavenato deixou uma provocação aos participantes sobre a capacidade das organizações de se adaptarem a esse novo contexto. “Estamos preparados para navegar nesse ambiente ou ainda estamos tentando usar mapas antigos?”, questionou.
Confira um resumo da participação de outros palestrantes do 3º Fórum Fiems Capital Humano:
Tânia Costa: Diversidade sustenta o negócio, mas inclusão real ainda é desafio das lideranças
A diversidade pode garantir a sustentabilidade dos negócios, mas apenas a inclusão efetiva é capaz de sustentar pessoas e transformar organizações. A avaliação é da executiva de recursos humanos Tânia Costa, durante palestra sobre o tema “diversidade sustenta negócio, inclusão sustenta pessoas”.
Com mais de duas décadas de experiência em gestão de pessoas e atuação em projetos de equidade racial e liderança, Tânia ressaltou que o debate sobre diversidade ainda esbarra em barreiras estruturais e culturais, especialmente na falta de representatividade em espaços de poder.
Ao compartilhar reflexões pessoais, a executiva chamou atenção para o impacto da ausência de referências na formação da identidade. “Se na mídia, nos ídolos, nos personagens infantis, tudo fosse parecido comigo — com meu tom de pele, meu tipo de cabelo —, onde eu me encaixaria?”, questionou. “Se a identidade é construída na interação com a sociedade, aonde eu me encaixava?”, reforçou.
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Essa ausência de pertencimento, segundo ela, ajuda a explicar por que ainda há poucas pessoas diversas em posições de liderança. “As cadeiras que hoje não são ocupadas por pessoas como eu representam cerca de 95% das lideranças”, afirmou. Para a executiva, o problema não está apenas no processo seletivo, mas na lógica que sustenta o sistema. “O RH não está selecionando as melhores pessoas — está reproduzindo um modelo histórico sem questionar”, disse.
Tânia também destacou que diversidade sem inclusão não gera resultado. Para ela, o engajamento dos colaboradores depende de um ambiente que vá além da representatividade simbólica. “Se diversidade é convidar para a festa e inclusão é chamar para dançar, a gente esquece que toda festa precisa de música”, afirmou. “Essa ‘música’ é a segurança psicológica.”
Na prática, isso significa criar condições reais para que as pessoas possam contribuir com suas competências e potencialidades. “Não adianta contratar uma pessoa com deficiência e colocá-la em uma posição onde ela não pode atuar pelo seu dom”, explicou. “Por que a gente ainda enxerga o outro apenas para cumprir meta e não pelo potencial que ele pode trazer?”
A executiva defendeu que a transformação exige escuta ativa e participação dos próprios grupos envolvidos na construção das soluções. “Não se constrói acessibilidade sem trazer quem vive essa realidade para a conversa”, afirmou.
Juliano Colombo: Escassez de talentos expõe urgência de protagonismo feminino
Em meio a um cenário global marcado por mudanças climáticas, tensões geopolíticas e avanço acelerado da tecnologia, a escassez de talentos tende a se agravar — e a resposta para esse desafio passa, de forma decisiva, pelo aumento da participação feminina no mercado de trabalho. A avaliação é do executivo e especialista em gestão Juliano Colombo, durante palestra sobre “escassez de talento e ressignificação da liderança”.
Segundo Colombo, o debate sobre o futuro do trabalho precisa sair do foco exclusivo na tecnologia e se concentrar nas pessoas. “Não é mais sobre adotar ou não tecnologia. Isso não se discute mais. É sobre como a gente vai tirar o melhor dela”, afirmou.
A fala ganha ainda mais peso quando conectada a uma transformação considerada por ele mais profunda do que a própria inteligência artificial: a transição demográfica. “Ela é mais impactante do que a IA. Porque a IA a gente decide o que fazer. A demografia não. É uma avalanche”, alertou.
Envelhecimento e escassez pressionam o mercado
Colombo destacou que o Brasil caminha para um rápido envelhecimento populacional sem ter alcançado o nível de desenvolvimento econômico de países que passaram por processo semelhante.
O impacto dessa mudança será direto na força de trabalho. Dados citados pelo palestrante indicam que, até 2040, mais da metade dos trabalhadores terá acima de 45 anos. Além disso, a partir de 2035, o país deverá ter mais pessoas acima de 65 anos do que crianças. Nesse cenário, a redução da população economicamente ativa tende a acentuar a disputa por profissionais.
Protagonismo feminino é “fator crítico de sucesso”
É nesse contexto que Colombo coloca as mulheres no centro da estratégia empresarial. Para ele, não se trata de pauta identitária, mas de sobrevivência organizacional. “Mulher não é inclusão. Mulher é fator crítico de sucesso do presente e do futuro do trabalho”, afirmou.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), citados por Colombo, reforçam o potencial ainda pouco explorado: apenas 53% das mulheres economicamente ativas estão trabalhando ou buscando emprego, ante 72% dos homens — uma diferença de quase 20 pontos percentuais.
“Onde está a grande oportunidade de ampliar a participação no trabalho? É com a mulher”, destacou. Em Mato Grosso do Sul, embora a participação feminina seja ligeiramente maior que a média nacional, a diferença ainda se mantém significativa.










